Em 2009, para comemorar o Ano da França no Brasil, foi criada a Coleção França.Br, carimbo que ilustrou as capas de todos os livros oficialmente chancelados pelo Programa de Apoio à Publicação (PAP) Carlos Drummond de Andrade da Embaixada da França.
Aqui você poderá encontrar todos os livros traduzidos no Brasil que receberam apoio a partir de 2009.
Esta coletânea é o resultado das escolhas feitas por editores franceses assim como por editores e universitários brasileiros.
Para saber como concorrer ao PAP, inscreva-se na área profissional do site (acesso gratuito).
Para dúvidas e outras informações, entre em contato com o Escritório do Livro da Embaixada da França no Brasil.

900 entradas – Este dicionário enciclopédico coloca, à disposição de todos, conceitos (autismo, behavorismo, cidadania, positivismo etc.), autores (Pierre Bourdieu, Charles Darwin, Michel Foucault etc.) e palavras-chave da cultura contemporânea (bioética, placebo etc.) que formam o corpus atual das ciências humanas. Um dicionário ágil – cada conceito, apresentado a partir de exemplos expressivos, é acompanhado de um histórico e de uma descrição de seus diferentes usos segundo as disciplinas. Os quadros destacam um tema ou um exemplo: “O efeito coquetel”, “A família nuclear sempre existiu”, “As emoções são naturais ou culturais?” Por sua abertura aos diferentes campos das ciências humanas, por sua concepção pedagógica e dinâmica, este dicionário será o companheiro de trabalho de estudantes, uma referência para os profissionais de ciências humanas e um instrumento de cultural geral para um público amplo.

Pierre Macherey é professor emérito da Universidade de Lille 3, onde coordena o seminário Philosophie au sens large. Ao lado de Jacques Rancière e Etienne Balibar, trabalhou com Louis Althusser na elaboração do marcante Ler o Capital. A série de artigos aqui apresentados recobre o período que vai de 1963 a 1996. Com a verve e a pertinência que o caracterizam, Pierre Macherey analisa nestes quatro estudos a problemática das normas e da filosofia da vida desenvolvida por seu antigo professor, Georges Canguilhem. Ao mesmo tempo, o autor sublinha a inovação de um pensamento audacioso e engajado do qual Foucault, e tantos outros depois dele, se reconhecerão orgulhosamente herdeiros. Assim, P. Macherey nos apresenta uma visão sistemática dos trabalhos de G. Canguilhem, trabalhos marcados tanto por aqueles de uma crítica ao dogmatismo, seja ele metafísico ou científico.

A organização deste livro, constituído por diversos escritos, foi interrompido pela morte do autor em janeiro de 1865. Pouco depois, um grupo de seis amigos de Proudhon reuniu os textos que faltavam para completá-lo e publicou o conjunto sob o título Do princípio da arte e de sua destinação social.
Nossa tradução brasileira é fiel à primeira edição, e inclui as explicações dos responsáveis por ela, expostas na Advertência ao leitor.
Neste livro, o leitor encontra reflexões aprofundadas sobre o conceito de arte, a sua utilidade, se ela é um elemento de civilização ou decadência, sobre a faculdade estética do homem, sobre o sentimento de beleza que age em favor na natureza e outras questões próprias de um ensaio.
Nesse sentido, todas as modalidades artísticas são englobadas por Proudhon. O leitor, com o livro, ainda terá a oportunidade de ver as constatações das diferentes formas de se pensar a obra de arte nos diferentes períodos (Idade Média, Renascimento, Reforma, Rev. Francesa, primeira metade do século XIX), além de um estudo crítico de David, Delacroix, Ingres, David de Angers e Rude, Léopold Robert, Horace Vernet, Chenavard e um exame minucioso de alguns quadros de Coubet.
Como se não bastasse, o autor ainda encontra espaço para dar conselhos e falar da afirmação da escola crítica.
Na mesma obra, há uma análise crítica de Émile Zola sobre a obra e o contexto de ensaios produzidos por Proudhon, além de uma discussão sobre a serventia da arte, pela qual Proudhon insistia em passar.

O autor não se propõe a entender como os conceitos freudianos se aplicam à interpretação de obras literárias e artísticas. Ao contrário, ele procura demonstrar como as formulações de Freud estão em estreita relação com os movimentos da arte ocorridos sobretudo a partir do romantismo, explorando as tensões entre a lógica do inconsciente freudiano e uma outra lógica, a do inconsciente estético.

Löwy é um pensador marxista brasileiro radicado na França, onde trabalha como diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique. É um relevante estudioso do marxismo, com pesquisas sobre as obras de Karl Marx, Leon Trótski, Rosa Luxemburgo, Georg Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin.
Em seu livro, Revoluções, estão reunidos os principais registros fotográficos dos processos revolucionários do final do século XIX até a segunda metade do século XX.
A obra resgata, assim, a trajetória daqueles que viveram movimentos contra hegemônicos e de inspiração igualitária, aliando rostos de anônimos que protagonizaram as lutas de classe a registros de dirigentes eternizados pela história, como Vladimir Lenin, Felix Dzerjinski, Leon Trotski, Béla Kun, Emiliano Zapata, Pancho Villa, Che Guevara e Fidel Castro.
A edição brasileira conta ainda, com um apêndice exclusivo, no qual Löwy faz uma reflexão sobre os momentos de resistência que marcaram a história do Brasil.

Michèle Petit é antropóloga e pesquisadora do Laboratório de Dinâmicas Sociais e Recomposição dos Espaços, do Centre National de la Recherche Scientifique, na França.
Possui obras traduzidas em vários países europeus e latino-americanos.
Em seu novo trabalho, a autora reune experiências de diferentes tipos de leitores em contextos adversos, especialmente em países da América Latina, entre eles o Brasil.
Neste livro a antropóloga francesa amplia os temas e aprofunda as análises de sua outra obra, Os jovens e a leitura, publicada em 2008 pela Editora 34.
A autora investiga as diferentes maneiras pelas quais a forma narrativa pode atuar como educadora, ao mesmo tempo em que se afirma como um poderoso instrumento de resistência ao caos interior e à exclusão social.

Quem sabe hoje em dia do que é feita a realidade contemporânea da ficção na França?
Quem sabe esquecer um instante as horas gloriosas da História literária desse país para se concentrar verdadeiramente no quê, nesta hora em que redigimos estas poucas linhas, é produzido em termos de narrativa?
Poucos são os que saberiam dar uma visão fiel deste assunto, de tal modo ele é florescente, variado, incoerente e de tal modo ele sofre para se manifestar ruidosamente sob o ângulo crítico, a se “definir” urbi et orbi.
Todo o projeto desta breve antologia, forçosamente parcial, forçosamente tendenciosa, é para tentar desenhar um panorama da produção contemporânea acontecendo na França, através de algumas obras significativas, através das biografias de alguns de seus autores, através da definição de uma paisagem editorial.
Por ocasião do Ano da França no Brasil, os idealizadores desta obra tentaram em suma um desvelamento que eles sabem incompleto, mas julgam muito útil.

O Dicionário Crítico do Feminismo reúne uma coletânea de rubricas redigidas por especialistas em cada uma das temáticas abordadas. Visa estimular a reflexão sobre a construção social da hierarquia entre os sexos e desenvolver um pensamento crítico feminista que favoreça a emancipação das mulheres e a igualdade na diferença.
Esta publicação traz um repertório de conceitos estabelecidos pelas teorias feministas para abordar as questões de gênero, apontando como alguns paradigmas das Ciências Sociais estão fundamentados na dominação masculina. Nesse aspecto, possibilita a ampliação do debate interdisciplinar e pluralista do feminismo crítico contemporâneo.
Este dicionário mostra como o mundo é marcado pela dominação das mulheres pelos homens num processo que, ao longo dos séculos, tem se transformado e assumido novas formas, sustentadas e fortalecidas não só por códigos sociais estabelecidos há décadas e impostos desde a infância, mas também por algumas políticas públicas (sociais, familiares e de emprego).

O filósofo alemão Peter Sloterdijk desenvolve neste livro uma série de reflexões feitas a partir da morte de Derrida. Mais do que uma simples homenagem, trata-se de lançar um olhar entre o modesto e o extremamente ambicioso sobre uma obra de cerca de oitenta volumes. Em vez de monumentalizar o conjunto dos textos de Derrida, tenta-se revê-lo com o recurso da pirâmide e de seu significado na civilização egípcia, além de expor o modo como se deu o advento do monoteísmo. Afirma o autor: “[...] já se pode ter desenhado o contorno principal de um retrato filosófico de Derrida: sua trajetória se definiu pelo cuidado vigilante de não se deixar fixar numa identidade determinada — cuidado este afirmado tanto quanto a convicção do autor de que seu lugar só podia se situar na linha de frente mais avançada da visibilidade intelectual.”
A hipótese de Sloterdijk propõe que o pensamento derridiano corresponderia a um tempo em que os autores, em vez de tratar diretamente dos assuntos, preferem comentar outros pensadores que já abordaram os mesmos temas. Viveríamos então, numa época de leituras de segunda ordem, o que colocaria necessariamente Sloterdijk — leitor das leituras de Derrida — em uma posição de terceira ordem. Se assim for, talvez se torne necessário, diante do arguto e irônico ensaio que ora se publica, indagar se, desde os egípcios, e em seguida com os gregos, judeus, romanos e cristãos, os autores e as civilizações não estiveram sempre, de algum modo, propondo reflexões de segunda, terceira e quarta ordens — ao infinito.
(Evando Nascimento)

Percorrer, através de uma seleção de textos, os dois últimos séculos da produção literária francófona da Bélgica, eis o desafio ao qual se propõe este volume.
Esta obra mergulha o leitor na extraordinária proliferação de uma literatura que começa antes mesmo de 1830. Uma literatura que oscila, constantemente, entre real e surreal, considerando-se que suas relações com a história, com a língua, com a forma e com o mito, são tecidas através de sutis descompassos, patentes ou escondidos, com os modelos franceses.

Neste livro, O Futuro da Francofonia, Dominique Wolton reflete sobre o devir de uma língua falada por milhões de pessoas em todo o mundo e marcada pela produção de incontáveis obras de arte de primeira grandeza. Não se trata, como podem pensar os mais afoitos, de uma defesa patriótica de uma língua, mas da universalização de um princípio: a diversidade linguística como patrimônio inatacável. Todo país deve lutar para preservar sua identidade, sua cultura, sua história, sua língua. Nesta época de globalização, sob a pressão das potências econômicas, muitos países sentem a tentação de abrir mão do que lhes é mais caro em nome de uma suposta facilidade.
A globalização, contudo, não pode significar homogeneização ou neocolonialismo. Ela precisa ser redimensionada em favor da diversidade cultural e pela diversidade cultural. Globalizar deve encurtar distância e estabelecer pontes, mas não empobrecer o repertório universal. Este livro de Dominique Wolton, ao falar do futuro da francofonia, aborda uma gama enorme de problemas, a começar pelo sentido da globalização. Afinal, precisamos de mais poliglotas ou de uma cultura dominada por uma única língua? A francofonia, assim como a lusofonia, pode, e deve, ser vista como resistência à uniformização? Ser moderno pode ser não ter medo de lutar em favor do que a ideologia hegemônica tenta rotular como anacrônico.

Aquilo que habitualmente é catalogado como “crítica literária” pode ser dividido em dois grandes grupos: de um lado, as tentativas de teorias efetivamente científicas da literatura, que discutem e classificam as obras segundo sua natureza; de outro, textos talvez mais impressionistas, em que muitas vezes as obras são pretextos para se falar de assuntos relacionados. O primeiro grupo costuma ficar restrito à academia; o segundo circula entre o grande público, e pode ter um grande valor para a formação, não apenas intelectual, mas também de caráter.
A obra de René Girard estabelece essa curiosa interseção. É científica na medida em que oferece um critério objetivo para a divisão das obras literárias em românticas ou romanescas. O modelo do desejo mimético – neste primeiro livro mais frequentemente chamado desejo triangular – também pode ser aplicado às relações de praticamente quaisquer personagens, à relação entre autor e leitor, entre autor e narrador, entre autor e autores, entre o autor e o desenvolvimento de sua obra, etc. Mas a obra de Girard, fazendo teoria da literatura, mostra que a literatura é uma tentativa de teorizar o desejo. Se a ciência explica a literatura, a literatura explica a vida. Aquelas impressões e intuições esparsas que norteavam a formação do caráter como faróis na noite escura são como que unificadas numa única grande luz.

Com a globalização, ei-nos projetados para o “pós-cidade”, para o “pós-urbano”. Na Europa, estávamos habituados a ver a cidade como um espaço circunscrito no qual se desenvolve uma vida cultural, social, política, tornando possível uma integração cívica dos indivíduos.. Somos agora confrontados de um lado com metrópoles gigantescas e sem limites, e de outro com o surgimento de entidades globais, em rede, cortadas de seu ambiente.
A reconfiguração que ora ocorre suscita inquietação: iremos assistir ao declínio irremediável dos valores urbanos que acompanharam a história ocidental? Prevalecerão inelutavelmente a fragmentação e o estiramento caótico? Estaremos condenados a lamentar a polis grega, a cidade do Renascimento, a Paris das Luzes, as grandes cidades industriais do século XIX?
Relembrando os elementos distintivos da urbe, Olivier Mongin assenta os fundamentos de um reflexão atual sobre a condição urbana. Vivemos numa época na qual a informação se troca de forma imaterial, mas de acordo com os fluxos do que com os lugares; como, nessas condições, refundar e reformular espaços urbanos de acordo com o nosso tempo?

A democracia reina, sem reservas, absoluta. Dominou seus velhos inimigos, do lado da reação e do lado da revolução. Pode ser, no entanto, que ela tenha encontrado seu adversário mais perigoso: ela mesma.
Este livro reúne textos escritos ao longo de vinte anos que examinam sob diferentes faces essa prodigiosa mudança. Vimos a democracia não apenas triunfar e avançar de maneira decisiva, mas voltar às suas origens ao pôr novamente em foco os direitos do homem e se remodelar com base naquela escola. Exceto que, por um retorno ainda mais inesperado, essa retomada dos primeiros princípios conduziu, na verdade, a solapar suas próprias bases. Ela se desfaz ao progredir.
É essa dificuldade que Marcel Gauchet explora, da política à psicologia, passando pela educação. “Nada fracassa com o sucesso”, observou Chesterton. A democracia sobreviverá a seu triunfo?

Desde o primeiro relato de suas aventuras eróticas em A vida sexual de Catherine M. – que vendeu mais de dois milhões de exemplares e foi traduzido para mais de quarenta líguas -, Catherine Millet não deixa de surpreender o público com minúncias de sua trajetória de desejo sem freio, contadas com estilo sóbrio e elegante. A outra vida de Catherine M. revela as armadilhas do casamento aberto e um elenco infinito de amantes e ousadias, além de um ingrediente inesperado: o doloroso e incontrolável ciúime que sentiu por um único parceiro.

“A guerra mudou a tal ponto de aspecto que é preciso admitir que o que foi pensado sob seu nome durante séculos praticamento desapareceu. Ser-me-ão objetados evidentemente os atentados terroristas de Nova York, Madri, Londres, a situação ‘explosiva’ no Cáucaso ou no Oriente Médio, ou ainda alguns países da África ou da América do Sul, dilacerados por intermináveis conflitos internos, etc. Contudo, eu jamais quis dizer, ao escrever ‘a guerra não existe mais’ que a humanidade enfim entrou na paz perpétua.
Depois da queda do muro de Berlim, acreditou-se que começava o fim da História. Com a derrocada do comunismo, todas as nações iriam se abrir ao liberalismo democrático; suas relações seriam reguladas por um amável comércio, com doces leis de câmbio e um quadro jurídico reconhecido por todos. Foi outra coisa que se produziu: o fim da guerra e o florescimento dos estados de violência. O fim da guerra não significa com efeito o fim das violências, mas sua redistribuição em configurações inéditas, cujos grandes princípios traçaremos em fim de percurso. O fim da guerra não significa sobretudo a paz, porque não é possível pensar a paz fora do horizonte da guerra.”

Vivemos em um mundo dominado por fronteiras. Tendo como pano de fundo a filosofia política de Kant, para quem um cidadão é alguém que se sente pertencente à uma comunidade política nacional delimitada por “marcas” e “limites”, tanto no tempo quanto no espaço, Michel Foucher analisa em Obsessão por fronteiras o funcionamento do mundo “globalizado” e sua suposta ausência de barreiras.
Ao contrário daqueles para quem o mundo é um gigantesco mercado – mundo em que as fronteiras são um obstáculo desnecessário e um custo adicional para a circulação de bens e serviços -, Foucher encara o desafio de pensar os impactos sociais, políticos e econômicos das constantes divisões teritoriais ocorrendo em nosso tempo.

Em Os filósofos e o amor: de Sócrates a Simone de Beauvoir, dois milênios de ideias sobre o amor são resumidos para o leitor interessado em conhecer melhor esse sentimento tão peculiar, capaz de oscilar entre a mais sublime idealização da alma e o mais mundano deleite da carne.
“O pensamento sobre o amor sempre foi escrito com o próprio sangue dos filósofos, com suas dificuldades singulares, suas neuroses, seus êxitos amorosos.”, garantem as autoras. Engana-se quem pensa que a filosofia se debruça sobre o tema com base na pura racionalidade lógica. Os fracassos de Nietzsche em suas investidas junto às mulheres e o perfil galanteador de Sartre certamente tiveram influência sobre suas maneiras próprias de pensar a experiência amorosa. É por esse motivo que o leitor vai encontrar aqui pitadas biográficas de grandes filósofos que revolucionaram o mundo – e amaram.

Neste livro, François Dosse, sem negar a evolução do gênero biográfico – que decerto sofreu alterações profundas – distingue três modalidades de abordagem biográfica: a idade heroica, a idadde modal e, por fim, a idade hermenêutica. Para ele, ao se detectar uma evolução cronológica entre essas três idades, ver-se-á claramente que os três tipos de tratamento da biografia podem combinar-se e aparecer no curso de um mesmo período.
O caráter híbrido do gênero biográfico, a dificuldade de classificá-lo numa disciplina organizada, a pulverização entre tentações contraditórias – como a vocação romanesca, a ânsia de erudição, a insistência num discurso moral exemplar – fizeram dele um subgênero há muito sujeito ao opróbio e a um déficit de reflexão. Desprezado pelo mundo sapiente das universidades, o gênero biográfico nem por isso deixou de fruir um sucesso público jamais desmentido, a atestar que ele responde a um desejo que ignora modismos.

O uso do arquivo e sua relação com a escrita da história constitui o objeto de reflexão deste ensaio de Arlette Farge, que escreve a partir de sua experiência ao trabalhar com documentos policiais do século XVIII conservados na Biblioteca do Arsenal e no Arquivo e na Biblioteca nacionais da França.
Escrita do ponto de vista de uma historiadora tomada de paixão pelos arquivos, a narrativa descreve o mundo das bibliotecas em tom muitas vezes pessoal e irônico, convidando o leitor a participar do prazer de frequentar esses espaços onde a monotonia do copiar contrasta com as peripécias nelas descritas, onde a solenidade do ambiente parece não comportar a vivacidade dos acontecimentos e personagens que habitam os registros ali depositados, onde o silêncio sepucral é interrompido pelo murmúrio de milhares de palavras e frases registradas nos documentos.

No singelo cotidiano de uma menina de treze anos, aparentemente ingênua e semelhante a qualquer uma de suas colegas, uma sequência de acontecimentos insólitos dá início a uma aventura inesperada. Desde então, Maria entra em contato com uma faceta de sua cidade e de sua própria identidade, que ela nem sequer imaginava existir.
Seguindo os passos da protagonista, o leitor percorre vários espaços da complexa cartografia carioca – paisagens tão próximas e tão distantes, como o morro do Cantagalo e o nobre bairro de Copacabana no auge de seu esplendor, durante os anos 50. Nesses cenários, desfilam os mais diversos personagens: a babá, o vendedor de amendoim, a dondoca, o porteiro e até mesmo o sambista Cartola, em uma espécie de participação especial.

Enquanto o capitalismo prospera, a sociedade se degrada. Ao lado do crescimento do lucro, cresce a exclusão. A verdadeira crise não é do capitalismo, mas sim da crítica ao capitalismo.
Essa crise é analisada desde as raízes pelos sociólogos Ève Chiapello e Luc Boltanski, que traçam o perfil do novo espírito do capitalismo a partir de um exame inédito dos textos de gestão empresarial que alimentaram o pensamento do patronato, irrigaram as novas formas de organização empresarial: a partir de meados da década de 70, o capitalismo renuncia ao princípio fordista de organização hierárquica do trabalho e passa a desenvolver uma nova organização em rede, baseada na iniciativa de seus atores e na autonomia relativa do trabalho, mas à custa de garantias materiais e psicológicas.
Esta obra sem igual é um convite à retomada das duas críticas complementares à crítica estética e à crítica social.As questões que deram origem a este livro nasceram da guinada quase completa da situação e das pequenas resistências críticas que, afinal de contas, foram opostas a essa evolução.

Durante mais de dois séculos, o circo inventou suas relações próprias com o corpo, a palavra, o objeto e o espaço sem deixar de manter sedutoras relações com outras disciplinas. Provenientes de novas escolas, as companhias de hoje desestruturam as categorias e as hierarquias tradicionais, concebendo obras nas quais a proeza não está mais em primeiro plano. A gente do circo contesta a noção de gênero menor inserindo-se com isso nas noções usufruídas pelas artes cultas? Os autores deste livro exploram um universo em que a noção de risco artístico recobre todas as direções.

Verdadeira caixa de ferramentas, este Atlas, concebido por um cartógrafo, uma geógrafa e dois cientistas políticos, é fruto do trabalho coletivo desenvolvido a partir do curso Espaço mundial, uma das principais disciplinas ministradas em Science Po (Fondation Nationale de Sciences Politiques), Paris, França.
Esta edição 2009 do Atlas da Mundialização, finalmente disponível para o público brasileiro, em língua portuguesa, mantém as características que fizeram dessa uma obra de referência em sua área:
•cartografia precisa;
•entradas temáticas desenvolvidas em páginas duplas e espelhadas, índice analítico e remissivo;
•dados estatísticos, mapas e gráficos totalmente atualizados;
•documentos inéditos sobre as mais recentes problemáticas do espaço mundial contemporâneo;
•textos sintéticos;
•projeto visual claro, arejado, que permite acesso imediato às definições e legendas das fotos.

O cristianismo impregna a vida cotidiana, os valores e as opções estéticas até mesmo dos que o ignoram. Ele contribui para o desenho da paisagem dos campos e das cidades. Às vezes, ganha destaque no noticiário, mas os conhecimentos necessários à interpretação dessa presença se apagam com rapidez. Com isso, a incompreensão aumenta. Admirar o monte Saint-Michel e os monumentos de Roma, de Praga ou de Belém, contemplar os quadros de Rembrandt, apreciar verdadeiramente certas obras de Stendhal ou Victor Hugo implica poder decifrar as referências cristãs que constituem a beleza desses lugares e dessas obras-primas. Entender os debates mais recentes sobre a colonização, as práticas humanitárias, a bioética, o choque de culturas também supõe um conhecimento do cristianismo, dos elementos fundamentais da sua doutrina, das peripécias que marcaram a sua história, das etapas da sua adaptação ao mundo.

Em meio aos episódios tumultuosos e sangrentos que compõem a saga da Revolução Francesa, um deles se destaca pela ausência quase total de violência e aparente inocuidade: a fuga do rei Luís XVI, na noite de 20 de junho de 1791, abortada 36 horas depois no vilarejo de Varennes. Com a pressão popular de 1789, o monarca fora obrigado a deixar a distante Versalhes e instalar-se no palácio das Tulherias, no centro de Paris, bem como tivera de engolir artigos da nova Constituição que limitavam muito seus poderes. Insatisfeito e considerando-se prisioneiro num palácio úmido e frio, ele se passa ridiculamente por burguês e, acompanhado de toda a família, tenta escapar para Montmédy, na fronteira leste do país, onde estão forças monarquistas leais.
Acontece que no meio do caminho ele é reconhecido e mandado de volta para a capital. A própria Assembleia tenta abafar o alcance do evento, fingindo acreditar num “rapto” do rei, preocupada que está em institucionalizar a Revolução e retomar a vida “normal” do país. Mas a verdade é que essa “viagem” representa uma fratura na história francesa e terá consequências indeléveis: ela destrói a imagem de um Luís XVI paternal, provoca o divórcio entre o rei e a nação, lança sobre o monarca a suspeita de traição ao povo, abre espaço para a ideia republicana até então pouco divulgada e renova a turbulência revolucionária que desembocará no Terror, do qual Luís XVI será uma das primeiras vítimas.
Em Varennes – A morte da realeza, a eminente historiadora Mona Ozouf reconstitui essa história que deu origem a muitas obras de ficção e ao extraordinário filme de Ettore Scola, Casanova e a Revolução, com o estilo saboroso de uma contadora de histórias e a argúcia de uma pesquisadora que evita as simplificações e sai em busca dos detalhes significativos que compõem um quadro complexo de um momento decisivo da Revolução Francesa e, por conseguinte, da história da humanidade.

Desta vez o autor da aclamada graphic novel Pyongyang traça um retrato atemporal, incisivo e sensível de Myanmar, onde permaneceu por 14 meses, acompanhando sua mulher, que trabalha para a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF).
Em Crônicas Birmanesas ele narra sua estada no país, onde aos poucos foi descobrindo a realidade política, social, cultural, religiosa e de saúde desta nação asiática governada por uma junta militar, e onde a economia é dominada por grandes grupos industriais internacionais.
Revistas e jornais censurados a golpes de tesouras, apagões diários em toda a cidade, regiões isoladas do resto do mundo pelos militares, internet monitorada pela censura, populações de vilas inteiras entregues à dependência de heroína e a líder de oposição, Aung San Suu Kyi, confinada em prisão domiciliar por mais de uma década. Esses temas são mesclados com outros mais leves, como o dia-a-dia com seu pequeno filho Louis, sua estada para meditação em um templo budista ou a alienação dos estrangeiros que ali habitam, formando um retrato do país, com muito humor, crítica e informações a que dificilmente teríamos acesso.

Depois da guerra que devastou Mboasu, um país africano imaginário, os pais não conseguem mais cudar de seus filhos. Estes são expulsos de casa, acusados de serem a causa de todos os males.
Contornos do dia que vem vindo conta a trajetória de uma dessas crianças: uma menina chamada Musango, determinada a reencontrar sua mãe para, assim, compreender sua própria história.
Ao acompanharmos a busca de Musango, testemunhamos a angústia e o crescimento de uma criança perdida no meio de um país atormentado pela violência, pela prostituição e pela superstição religiosa. O olhar com que a jovem observa a África, o seu povo e sua vida, que ama e odeia ao mesmo tempo, é o de alguém que foi obrigado a crescer rapidamente, mas que, apesar disso, segue cheio de esperanças no futuro.

Atiq Rahimi compôs pequena obra rica em concisão e poesia (“no Afeganistão as crianças aprendem a ler na escola com os grandes poetas do passado”), onde ressurge o pranto da mulher, uma mulher afegã, voz de todas as mulheres do mundo, incompreendida pelo marido mais apegado a sua Kalashnikov que às contendas da carne – o casamento se consumaria anos depois das bodas.
Pedra-de-paciência é o nome de uma pedra mágica que acolhe os lamentos de quem se confidencia a ela. O dia em que ela receber tristezas demais, explodirá em erupção apocalíptica. Aqui, a mulher revela seu desejo, seu desamparo, sua dor, sua condição feminina, ao marido inerte após ter recebido uma bala na nuca, enquanto na rua os tanques, as granadas, os fuzis e os combatentes imberbes impõem a lei da guerra fratricida.
Com esse livro, Atiq Rahimi ganhou o prêmio Goncourt em 2008.

O principal objetivo desta obra é reforçar as pesquisas científicas entre os pesquisadores franceses e brasileiros no domínio das relações entre o cinema e as sociedades que denominamos, a partir de Marc Ferro, de cinema-história. O livro reúne contribuições de pesquisadores reconhecidos em três áreas principais: os fundamentos teóricos da história e das ciências sociais e da representação dos processos históricos, a construção e a reconstrução do passado no cinema e os filmes como lugar de memória e de identidade que se cruzam no discurso fílmico. Os fenômenos são assim circunscritos a partir de um conjunto de suportes audiovisuais pouco abordados no Brasil, sob o ângulo da teoria cinema-história.

“O termo sociologia compreensiva (verstehende Soziologie) pertence sem dúvida a M. Weber, que (…) tentou ao mesmo tempo lhe fornecer uma definição e circunscrever seu campo. Para apreender a problemática na qual ele se inscreve, será necessário primeiramente apresentar as teorias de W. Dilthey e de G. Simmel, que encaram, cada um à sua maneira, os problemas da compreensão e assinalam as condições gerais de um tal processo. Para isso, eles tiveram de se confrontar com as tentativas de fundação das ciências humanas que se apoiavam na psicologia. Tais empreendimentos caracterizam o espaço de pensamento germânico, e mais precisamente ainda todos os pensamentos ligados à filosofia idealista da história e à crítica da razão histórica.” (Trecho da apresentação da obra)

Ao tomar como objeto de estudo o medo, Jean Delumeau parte da ideia de que não apenas não apenas os indivíduos mas também as coletividades estão engajadas num diálogo permanente com a menos heroica das paixões humanas. Revelando-nos os pesadelos mais íntimos da civilização ocidental do século XIV ao XVIII – o mar, as trevas, a peste, a fome, a bruxaria, o Apocalipse, Satã e seus agentes -, o grande pensador francês realiza uma obra sem precedentes na historiografia do Ocidente.

Acreditando piamente que a sala escura do cinema é um ambiente que permite a rara fusão da imaginação com a racionalidade, o francês Ollivier Pourriol teve uma idéia inusitada : ensinar filosofia através de enredos de filmes cultuados no mundo inteiro.
Este livro traz as aulas ministradas pelo autor em torno da obra do francês René Descartes (1596-1650) e do holandês Baruch de Spinoza (1632-1677). Descartes inaugrurou o racionalismo na Idade Moderna, com o seu “Penso, logo existo”. Ao contrário de Descartes, Spinoza achava que a emoção só pode ser suplantada por outra emoção – jamais pela razão.

Imprevista, mas regular, sempre nova e sempre inteligível, a moda nunca deixou de despertar o interesse de psicólogos, estetas e sociólogos. Roland Barthes, porém, a examina de um ponto de vista novo. Captando-a através das descrições da imprensa, ele desvenda um sistema de significações e a submete pela primeira vez a uma verdadeira análise semântica: como os seres humanos constroem sentido com o vestuário e a fala?
Este livro, que se tornou um clássico, é um dos exemplos mais brilhantes de aplicação da semiologia a um fenômeno cultural.