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quinta, 28/09/2017, 18:00h
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Francis Wolff no ciclo “Mutações” 2017

Este ano, filósofos brasileiros e franceses reúnem-se, mais uma vez, no Rio, em Belo Horizonte e Brasília em torno do conceito de Mutações, desta vez para discutir este as dissonâncias do progresso.

Dissonâncias e vicissitudes do humanismo nos tempos modernos – Conferência de Francis Wolff

 

“O que é o humanismo?

O humanismo afirma que a humanidade é o valor supremo e que, como tal, deve ser defendida acima de tudo. A ideia de humanismo nasce na Europa renascentista, nesse movimento geral dos tempos modernos que foi chamado de laicização, secularização ou desencantamento do mundo: nem todo valor vem necessariamente de Deus, e o outro mundo talvez não seja o único.

Com isso, instaurou-se a dúvida na Modernidade… Teocentrismo ou humanismo?

Mas uma segunda dúvida vem reforçar a primeira, uma vez que se começou a valorizar a humanidade na Europa no momento mesmo em que esta empreende dois dos maiores crimes da história exatamente contra a humanidade – o extermínio das populações ameríndias, em nome de sua conversão ao suposto verdadeiro Deus, e a escravidão de milhões de africanos para explorar as riquezas do Novo Mundo. Pergunta-se então: quem é humano? O que é a humanidade?

Desde o Renascimento o humanismo conheceu muitas vicissitudes. Na época das Luzes, o Homem era o valor supremo e, com ele, o Progresso, cujo culto era inseparável do humanismo. Quem, senão o homem, povoou a terra inteira, domesticou as plantas e os animais? Foi ele que se vestiu fazendo com suas mãos as roupas de que era naturalmente desprovido. Foi ele que fabricou suas armas e se equipou. Somente ele construiu para si abrigos e moradias. Transformou a natureza valendo-se de suas maravilhosas técnicas. É ele, somente ele, que dá valor às coisas, sejam elas quais forem. As Luzes associaram humanismo e progresso. Deve-se hoje dissociá-los?

Saiba-se que desde as Luzes o homem encontrou rivais.

Há, por um lado, o caminho que trilhou o século 20. É o caminho do pior. Ele ensina: “Não há homens em geral, há ‘nós’ e há ‘eles’”. São duas “naturezas” que tudo opõem. E nós somos “nós”, isto é, somos daqui (eis a prova: “Estamos em nossa casa”), e eles são somente “eles”, estão lá fora. Portanto, é preciso expulsá-los de uma só vez do corpo social, deportá-los para longe daqui, condená-los aos trabalhos forçados ou exterminá-los como piolhos ou ratos. É uma questão de vida ou morte.

Mas eis que surge a seguinte formulação: a humanidade não existe porque nenhum ser humano está fora de sua classe ou fora da história. Tudo depende de quem são esses seres humanos, isto é, de quais são suas proveniências históricas. Não há homens, há somente burgueses ou proletários, Exploradores ou Explorados. Não são duas naturezas opostas, mas duas histórias contrárias. O Sentido da história exige o sacrifício de uma geração ou a eliminação definitiva, embora interminável, dos inimigos de classe.

Por outro lado, há novos caminhos que foram abertos pelas crises ecológicas, a extinção das espécies, o esgotamento dos recursos naturais, o aquecimento climático. Por que se deveria, então, insistir em valorizar a humanidade? Acaso se conhece outro ser vivo que se empenha não só em destruir outros seres vivos como em tornar cada vez mais difícil a vida na terra? Eis aí um ser que polui seu hábitat a ponto de torná-lo inabitável. Que trata a terra, os ares e os oceanos como suas latas de lixo. Que cresce descontrolada e desmedidamente. Eis aí uma espécie, a humana, que sujeitou diversas outras espécies para colocá-las a seu serviço ou que sequestra outras para abatê-las em série. Que esgotou o solo e o subsolo à força de extrair metais e energias fósseis para manter suas conquistas. Cuja temível técnica se revela capaz de fazer explodir o planeta.

Assim, com a crítica do homem e do progresso nascem outros valores absolutos, supra-humanos: a vida em geral, o planeta, a Natureza.

A questão mais séria hoje é, portanto, a seguinte: deve-se salvar a humanidade?

Em outras palavras: esses novos valores são compatíveis com o humanismo? Ou estão em contradição com ele?”

 

Sobre o conferencista : 

Francis Wolff é professor de filosofia na École Normale Supérieure (Paris). Foi professor na Universidade de Paris-Nanterre e na USP. Escreveu os livros Socrate (edição portuguesa: Sócrates), Aristote et la Politique (edição brasileira: Aristóteles e a política), Dire le Monde (edição brasileira: Dizer o mundo), L’être, l’homme, le disciple e Notre Humanité, d’Aristote aux neurosciences (edição brasileira: Nossa humanidade, de Aristóteles às neurociências). Escreveu ainda ensaios para as coletâneas A crise da razão, O avesso da liberdade, Muito além do espetáculo, Poetas que pensaram o mundo, O silêncio dos intelectuais, Ensaios sobre o medo, O esquecimento da política, A condição humana, Vida, vício, virtude, Mutações: a experiência do pensamento e Mutações: elogio à preguiça.

 

Sobre o ciclo “Mutações” 2017 : www.mutacoes.com.br

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